IAgora… o que fazer?
- Camila Gervaz

- 25 de mai. de 2023
- 5 min de leitura
O uso das ferramentas de Inteligência Artificial Gerativa e os processos de ensino e aprendizagem
(Esse texto não foi produzido por uma IA, mas por uma proletária cansada.)
Nos últimos dias tem pipocado as notícias, reportagens, vídeos e obviamente cursos, palestras sobre o uso de Inteligência Artificial gerativa. Quem não viu uma só notícia sobre o famosinho chatgpt? Ou quem não curtiu e deu uma risada com as imagens geradas pelo DALL.E, midjourney ou algum dos seus parentes? Vai me dizer que você não viu as imagens de dinossauros em profissões das mais variadas? Se não viu, vale a pena, rs.

Algumas das imagens criadas utilizando o midjourney disponibilizadas no perfil do instagram @the_ai_dreams.
Ou ainda: quem não viu alguma profecia catastrófica sobre como a sua profissão corre o risco de ser extinta, ou você se tornar obsoleto com o avanço das ferramentas de IA?
Por fim, quem não se viu tentado a fazer download de algum e-book sobre os comandos avançados para uso do chatgpt para a sua área e inclusive chegou a oferecer voluntariamente, qual sacrifício aos deuses, os seus dados de contato para mais uma base de dados que vai entupir a sua caixa de e-mails com spam? Tá tudo bem, por aqui também rolou isso. Posso dizer: culpada!
E tem também a resposta a tudo isso. As notícias sobre como a ferramenta X, Y ou Z foi aprovada num concurso, em um processo seletivo, escreveu uma tese (se quiser escrever a minha… brincadeirinha! Mas ajudar a revisar, ela vai sim, mas já já vamos falar sobre isso!) A reação ao uso em publicações científicas, a discussão sobre plágio e autoria, sobre os limites da arte. As imagens geradas por IA são obras de arte? Mas e as NFT?
O ponto é que todas essas ferramentas, o uso da IA generativa parece aquela expressão popular: “Falem bem ou mal, mas falem de mim”. E sim, esse é o momento de falar sobre isso, ou melhor dito, que precisamos falar sobre isso, sabe o por quê? Porque diferentemente do Bruno, a gente precisa falar sobre as transformações em curso na sociedade e o que podemos fazer, como podemos entender. É simples: se trata de acompanhar e viver no nosso tempo, aceitando os desafios e buscando soluções ou, quando isso não é possível, problematizando questões.
Se você for uma pessoa que trabalha com educação como eu, você provavelmente já está sentindo os efeitos dessa mudança de paradigma. Em uma aula, conversando com um aluno querido, problematizamos o uso dessas ferramentas e fizemos isso explorando elas de forma crítica e reflexiva. Vimos as potencialidades e também as limitações, os riscos, mas as facilidades e benefícios que podem nos oferecer - especialmente se você também é mais um proletário latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior…
Na nossa discussão e exploração de prompts ou comandos vimos como essas ferramentas podem auxiliar nos estudos autônomos de cada aprendiz de língua. Sem saber, meu aluno parafraseou Dolors Reig quando afirmou que precisamos, como educadores, refletir sobre os comandos, sobre as perguntas a serem feitas e não nos centrarmos nas respostas. Esse é exatamente o que defende Reig (2011, 2012, 2013) quando afirma - reproduzo aqui livremente - que em uma sociedade aumentada, em uma sociedade da informação, ou seja, uma sociedade na qual a informação já está potencialmente disponível (e aqui eu tomo o direito, como latino-americana, de inserir esse potencialmente, porque sabemos que estar disponível é algo muito relativo, que depende da realidade dos indivíduos, mas esse é assunto para outro dia) devemos nos centrar nas perguntas adequadas e não nas respostas.
E quais são essas perguntas? Você já deve estar pensando que eu vou oferecer um e-book ou um curso com o título: As 50 perguntas essenciais para a educação na sociedade aumentada na era da IA. Sinto decepcionar… mas, dessa vez eu vou ficar devendo…
Brincadeiras à parte, a questão é que: não há respostas prontas. E nem mesmo o chatgpt ou outra ferramenta de IA pode te dar. Não acredite, ou melhor, questione se alguém te oferecer soluções expressas. Sei que nessa sociedade do cansaço e do esgotamento (Han, 2017) na qual vivemos nos sentimos obrigadas a produzir, a ter um desempenho que nos torne competitivos em tudo (menos na economia do cuidado, né? mas deixemos isso para outro dia) e às vezes cedemos a um fast food, a um serviço que nos entregue exatamente aquilo que queremos (ou que achamos que queremos…)
Reig discute há alguns anos o uso das tecnologias e sempre combateu as visões mais pessimistas ou alarmistas sobre esse uso, tratando de olhar para as potencialidades que um uso reflexivo das tecnologias pode nos oferecer. Em um texto publicado em 2011 ela nos propõe uma reflexão sobre o uso que fazemos e o uso que podemos fazer das tecnologias. Ela nos mostra como, até aquele momento, o nosso uso se dava para a informação e comunicação (TIC) ou para a aprendizagem e conhecimento (TAC), quando revestíamos de uma intencionalidade pedagógica o nosso uso das tecnologias. Ela propôs que passássemos a fazer um uso das tecnologias que ultrapassasse o mero consumo, a passividade e em termos de processos de ensino e aprendizagem, que nos envolvessemos em um uso orientado ao empoderamento e a participação (TEP).

Há trabalhos muito interessantes sobre esse modelo, como os de Mayrink (2018, 2021), Albuquerque-Costa, Mayrink e Oliveira (2020) isso só para citar alguns exemplos, que discutem como podemos fazer um uso das tecnologias que seja empoderador e promova a participação ativa e crítica na sociedade, e em especial o que (nós) educadoras e educadores podemos fazer nesse sentido.
Esse era o ponto no qual eu queria chegar nesse texto curto: temos que lidar com a complexidade dos tempos que vivemos e pensar de forma crítica sobre nossas práticas, sobre nossa sociedade e sobre como e onde podemos intervir. Que perguntas podemos construir? Negar a existência de tais ferramentas ou recursos, ou se negar a aprender nos leva a um engessamento e a uma alienação que nos impede de dialogar com nossos pares, nossos colegas, nossas alunas e alunos. Não podemos negar a nossa realidade, mas podemos tentar compreendê-la, analisá-la e pensar soluções, intervenções colaborativas. Desenvolver o nosso pensamento crítico, estimular a reflexão junto a nossas e nossos aprendizes e aprender juntas e juntos. Então embora eu não possa (não consiga e nem queira) responder à pergunta do título desse texto, eu posso oferecer mais algumas perguntas:
O que eu tenho feito sobre isso? O quanto eu sei sobre essas ferramentas? O que meus alunos e minhas alunas já sabem sobre isso?
Como eu posso discutir isso com minhas turmas ou estudantes?
Como eu posso discutir isso com meus e minhas colegas?
Eu conheço alguém - uma fonte confiável - que fala sobre isso? Onde eu posso me informar e me formar sobre isso?
Eu já fiz testes? Quão aberta/o eu estou a fazer essa tentativa?
Esse papo não se encerra por aqui, podemos continuar. E me conta, qual a sua relação com essas ferramantas?
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